Diário de Au Pair: CRISE DO SEGUNDO ANO

Eu ando meio louca ultimamente, desanimada com tudo, sem paciência e com uma homesick que eu não sei da onde saiu. Quero dizer, minha host family não mudou, minhas kids não mudaram, nada está diferente, esse sentimento está aqui por que então?

Me peguei me perguntando várias vezes da onde saíram todos esses sentimentos confusos; e reparei que isso começou junto ao começo de setembro, junto com a volta às aulas, junto com as folhas alaranjadas, junto a minha primeira aula na Parsons e, mais importante, junto ao começo do meu segundo.

Pensei mais um pouco… Eu fiz coisas muito legais esse último mês, eu fui pra praia com a host family, eu fiz mais uma road trip com as minhas amigas, eu fui no show do meu cantor favorito, e eu comecei a estudar num lugar que eu sempre sonhei. Era pra eu estar feliz da vida, não? E talvez eu estaria se ainda fosse o primeiro ano. Parece muita ingratidão, eu sei, essa é uma das razões pelas quais eu fico ainda mais confusa, e se você ainda não é au pair, ou é, mas ainda está no começo do seu primeiro ano, dificilmente vai conseguir entender com clareza esse post.

Mas, acredito eu, que quem já está no segundo ano, ou já terminou o programa, sabe o real significado de todas essas palavras.

Ser Au Pair não é uma tarefa fácil. É sim um programa que abre portas para vários sonhos serem realizados e como tudo na vida existem lá seus desafios, mas enfrentar todas essas barreiras longe da família, dos amigos, da sua casa e da sua rotina pode ser desafiador demais em alguns momentos, e esses momentos definitivamente beiram o segundo ano do intercâmbio.

O lance com o segundo ano é que, diferentemente do primeiro, nada mais é novidade, nada mais tão excitante como no começo, e as partes negativas começam a ter um peso muito maior em consequência.

Outra coisa é que no meu primeiro ano, toda vez que eu viajava eu me distraia e voltava mais disposta pro trabalho. Hoje eu dia, é o oposto, por alguma razão quando eu viajo, volto extremamente cansada da viagem, e como eu volto direto pra trabalhar no dia seguinte não da tempo de repor as energias. Além do mais, cada viagem nova, cada aula do meu curso de moda, cada momento que me deixa feliz faz a realidade da vida de Au Pair parecer um poço sem fundo, eu me sinto a Alice, quando ela entra naquela toca atrás do coelho e é acaba caindo, e caindo, e caindo numa loucura que parece não ter fim. Porque independente de todas as coisas boas que esse programa traz, e independente do quanto eu gosto de criança, ser Au Pair não é o trabalho dos sonhos, não é o que todo mundo quer fazer pro resto da vida e acordar cedo pra ouvir criança mandar em você aos berros passa longe de ser um trabalho agradável, e depois de 365 dias meus ouvidos não aguentam mais screaming and winning por tudo.

Eu não estou aqui pra decepcionar ninguém, ou pra ser ingrata. Até porque esse programa me abriu oportunidades que eu talvez nunca conseguisse realizar do Brasil, ele me fez crescer, e é um programa ótimo, mas parte de ele ser bom é exatamente porque ele não é uma mar de rosas. Mas antes de vir parar aqui a gente imagina um nível de dificuldade pra esse programa, e quando chega aqui e descobre que ele é muito maior, cada batalha exige um pouco mais da gente e parece que nossas forças vão desaparecendo depois de um ano.

E se você está aí se perguntando porque eu estendi o programa já que aparentemente é difícil no segundo ano, eu te explico: a carta da agência perguntando sobre a extensão chega com seis meses, com seis meses agente ainda se sente vivendo um filme, tudo ainda é lindo. No meu caso minha carta chegou assim que eu cheguei de rematch na minha família, eu não os conhecia, eu não sabia o que eu queria fazer, eu só sabia que queria aproveitar os cinco meses que eu perdi na minha primeira família, eu não fazia ideia de que um ano seria o suficiente, então eu decidi ficar mais alguns meses.

Mas quando o segundo ano virou e eu percebi que teria conseguido fazer o suficiente em um ano já era tarde demais.a saudade de casa bateu, o trabalho ficou cansativo e todo o resto virou comum.

Mas eu não vim aqui decepcionar vocês, vim fazer exatamente o oposto, eu vim alerta-loa e dizer que a crise do segundo ano existe (ela nem precisa esperar o segundo ano chegar), tem que ser forte pra aguentar a barra que é ficar dois anos longe de casa, pra não surtar em nenhum momento do seu expediente, pra ter disposição de acordar todo dia com um sorriso no rosto mesmo com a maior das dores de cabeça (porque criança reflete a energia que a gente transmite), tem que ser forte pra ficar sem o colo da mãe ou da comida da vó e tem que ser forte pra não deixar as dificuldades vencerem.

Te garanto que você vai ter mais dor de cabeça e homesick do que carimbos no passaporte, mas também te garanto que quando você sair desse programa transformada por todas as lutas e batalhas, são dos carimbos que você vai lembrar, das vezes que a sua kid sorriu pra você sem motivo algum, de todas as vezes que esse programa te fez feliz, batalhas existem em qualquer situação da vida e se você não passar por elas agora, elas voltam no futuro, então sejam fortes e não desistam porque no fim tudo fica bem e eu prometo farei o mesmo por aqui.

Beijos e até a próxima!

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